Falo Porque Quero Ouvir

Um blog com opinião própria, mas que quer revê-la com você!

CANÇÃO DESTE NATAL (e de outros)

Publicado por José Vasconcellos em 23/12/2009

Procurou na terra

procurou no ar

procurou na guerra

e não soube achar.

Procurou no rio

procurou no mar

no telégrafo sem fio

e outra vez no ar.

Muito velho e sábio

foi que se lembrou

dentro dele mesmo

nunca procurou.

Do livro: “Livro Geral” de Carlos Pena Filho
, Ed. Póstuma, 2 ªed. 1999, PE

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Alienados&Alienações

Publicado por José Vasconcellos em 16/12/2009

“Alienação é o estado resultante do abandono ou privação de um direito natural

(Houaiss)

Acho que essa deva ser a grande (enorme, aliás) vantagem de termos a mais absoluta certeza que não sabemos de nada ou que ainda se tem muito (muitíssimo) que aprender. O fato de sempre nos surpreendermos com aqueles que nos cercam.

Hoje eu percebi caso já estivesse diante dos meus olhos, ou descobri uma nova e absolutamente alienada forma de olhar para os fatos do dia-a-dia, mais precisamente para os fatos tristemente deploráveis que nos cercam nessas últimas semanas do ano de 2009. Com todo o respeito a quem me deu esse exemplo, pois respeitar idéias alheias é fundamental para podermos, sempre, aprender mais.

“Era melhor que nada tivesse sido descoberto, e as coisas continuassem como estavam, seria bem melhor para nós!” – Foi essa a frase que ouvi e que me mostrou esse obscuro lado da alienação político-social em que vive mergulhada uma parte que bem poderia ser bastante ativa de nossa sociedade.

Falamos dos “alienados” – as aspas são justas, afinal se eu sou alienado para você, bem posso ser alguém bastante consciente para outros, não é mesmo? – mas falando desses que apenas evitam saber o que acontece no dia-a-dia da Nação porque não querem ouvir essas barbaridades, ou daqueles que tomam posição idêntica àquela que a mídia destila naquele momento e a mudam no momento em que essa mesma mídia muda de lado conforme as necessidades empresariais que a movem.

Existem aqueles “alienados” que apenas acreditam que “o que é do homem o bicho não come” e ficam aguardando pacientemente que se faça a Justiça, e coloco a palavra “Justiça” com o “J” maiúsculo porque, evidentemente, não falamos da “justiça dos homens” que às vezes tarda, e é falha.

Mas a meu ver – ao menos no meu particular modo de ver – esse “novo” modelo de alienação, que imagino ter percebido somente agora, é o que mais expõe a alma humana com quase todas as suas mais egoísticas mazelas.

“… seria bem melhor para nós…”, decididamente o egoísmo carregado nesse período da frase faz dela um ícone desvairado do que, justamente, muitos desprezam nos tristes fatos que vem poluindo o quadro político brasileiro nesse final de 2009.

Mas, talvez aí, seria mais justamente correto explorar os motivos dessa alienação em especial e, talvez só talvez, se assustar com suas possíveis raízes.

Para quem leu obras imprescindíveis para entender bem os tempos de hoje como “A História Da Riqueza Do Homem” ou “O Príncipe”, a frase que tanto me abalou ao ponto de digitar sofregamente desesperadamente esse “desabafo” fica exatamente como um “dejá vu” dos dois livros que mencionei, e a explicação pode ser bastante elucidativa para quem está lendo essas “mal traçadas linhas” (isso ficaria bem nos tempos do lápis ou da pena).

Ambos os textos mostram uma realidade da Idade Média (aquela que muitos chamam de “idade das trevas”, lembram?), a dependência do homem daquela época de um rei, senhor, soberano ou alguma entidade dominadora e, em termos menores, guardiã.  Alguém que fosse “o provedor” ou o “senhor das leis” ou aquele que cobrava os impostos, mesmo. A frase que tanto me incomodou mostra isso, a dependência de alguém poderoso, alguém que possa garantir que tudo esteja bem, mesmo que esse “bem” não passe de uma falácia e esse dito senhor seja, na verdade um déspota, não que estejamos tratando com déspotas no Brasil da primeira década do sec. XXI, mas não restam dúvidas que muitos de nossos “administradores públicos” posam como reizinhos mimados e só não são tirânicos porque seus assessores fazem as vezes daqueles escravos que acompanhavam os generais romanos vitoriosos que desfilando pelas ruas de Roma tinham-nos atrás, segurando a coroa de louros e dizendo: Lembra-te que és apenas um homem.

Mas estou me deixando levar pelas delícias da História e esquecendo as perturbações do presente, os alienados que nos cercam. Mais especificamente aquela alienação que se locupleta na ignorância forçada ou, como é o fatídico caso daquela frase que me corrói os neurônios, faz-se de desentendida para se beneficiar, mesmo que não por tempos indeterminados, das sobras da corrupção ou, talvez pior ainda, do que pode lucrar calando-se frente ao abismo.

Pense nisso conforme a primeira frase desse texto, que está lá no “Houaiss”, o dicionário, “alienação é o estado resultante do abandono ou privação de um direito natural”.

Qual seria esse seu “direito natural” que te arrancaram?

O que, teu por direito inalienável, te negam quando não questionas aos berros ou nas ruas ou na internet que o seja, os atos vis que te escandalizam intimamente?

Até a próxima!

José Vasconcellos

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A Censura e o Porvir

Publicado por José Vasconcellos em 05/12/2009

“Não cabe ao Estado, por qualquer dos seus órgãos, definir previamente o que pode ou o que não pode ser dito por indivíduos e jornalistas”.

(Carlos Ayres Britto – Ministro do STF)

Começo esse texto com uma citação bastante atual, além de bem próxima de nós brasileiros com o propósito de caracterizar que nosso País tem pessoas de elevada envergadura moral que lutam contra essa que, se não nos acostumarmos a identificá-la e combatê-la, principalmente agora em tempos de mídias corridas, voláteis e virtuais, voltará a ser uma moléstia maior do que jamais pensamos poder ser.

Alguém pode pensar que em tempos de internet temer a censura seja um exagero ou paranóia, mas garanto a você que me lê nesse momento que, paralelamente a sua leitura, textos, vídeos e coisas afins estão sendo extirpados de alguns sites dessa internet. Alguns de forma criminosa, outros sob a proteção de alguma “ordem judicial” ou determinação de algum governo reacionário… Ou nem tanto assim!

Os brasileiros com a minha idade, 50 anos, conhecem o que seja a censura, viram e sentiram seus efeitos bastante evidentes nas décadas de 60, 70, 80. Os mais jovens, que já nasceram sob a égide da cybercultura (outra coisa perigosa, aliás, aliada da censura, mas que merece outro texto mais específico), caso não saibam – e não duvido que muitos não saibam – podem ter um exemplo no incidente mais marcante no quadro político de nosso País, o desembargador Dácio Vieira, do TJDF, ex-consultor do Senado e íntimo no convívio da família Sarney, censurou o ESTADÃO de publicar qualquer reportagem sobre a “Operação Boi Barrica”, da PF, que investigou negócios de Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

Mas falar da censura no Brasil fica muito pequeno, faz com que aquele sério problema da maioria dos brasileiros, o de se depreciar, fique latente demais e, particularmente, acho que isso já deixou de ser um problema, virou uma doença que precisa desesperadamente de uma cura imediata.

Podemos começar com um fato ocorrido na Inglaterra, um livro e um nome, os dois últimos bastante conhecidos:

“A Revolução dos Bichos (Animal Farm) é uma sátira ao totalitarismo soviético, obviamente, e é um livro muito famoso que todo mundo lê. Mas o que as pessoas geralmente não lêem é sua introdução, que fala sobre censura na Inglaterra – e o principal motivo pelo qual não lêem esta introdução é que ela foi censurada; simplesmente não foi publicada com o livro.”

(“Understanding Power” Noam Chomsky)

Legal, não é mesmo?! Um dos livros mais afamados, longe da cultura de bruxinhos e magos, foi para as bancas… Censurado! Aliás, um breve parêntesis aqui: (se você não leu, leia, leia com muita atenção, com muito cuidado e verá uma profecia – o livro é de 1945 – sobre a ascensão de muitos “líderes” do mundo de hoje).

Ainda na terra da rainha Elizabeth. No ano de 2009, jornalistas ingleses fizeram um protesto. Os jornais circulam com uma tarja preta na primeira página, para deixar claro que foram vítimas da censura. Por quê? Porque após conseguirem obrigar o Parlamento inglês a divulgar os documentos oficias sobre favores e mordomias que os deputados usufruíam, sempre por conta do contribuinte, viram esses documentos serem entregues com censura. Vários trechos foram suprimidos, outros foram rasurados (beira a cretinice, isso).

Na terra de Nicolas Sarkozy e da Torre Eiffel, um trabalho realizado no ano de 2003 por diversos fotógrafos, com o título original de: “Palestine, d´un monde à l´autre“. A exposição foi censura na França, especificamente na cidade de Lille, a justificativa da censura seria em face de que a exposição incentivaria a violência, porém, trabalhos que mostravam a violência sofrida pelo povo judeu não sofreram nenhum tipo de censura naquela cidade francesa. Outro exemplo? Em um artigo intitulado “Censura na França”, escrito para o trimestral “The American Scholar“, a autora revela que diante da oposição de Arlette Elkaïm Sartre, filha adotiva do casal Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre e executora testamentária do filósofo, a editora Gallimard se viu obrigada a recusar a publicação do livro na França. Arlette não queria a publicação de cartas de Sartre a algumas de suas amantes, e foi mais longe ao exigir à editora americana Harper Collins cortes no original. Os americanos recusaram, mas aceitaram pagar por uma versão francesa censurada, editada pela Grasset.

Já que falamos dos Estados Unidos, a belíssima Eva Mendes “era” a estrela do anúncio para o perfume “Secret Obsession”, da Calvin Klein. Nele, ela aparecia, em uma imagem preta e branca, tapando parte dos seios e deixando suas curvas bem à mostra. Adivinhem?! Pois é, censuraram!

Ainda no país da pseudo-democracia, o próprio presidente ameaçou ir aos tribunais para impedir a divulgação de fotografias de soldados norte-americanos torturando prisioneiros no Iraque, Afeganistão e Guantánamo – coisa que o Departamento de Defesa fez na época de George W. Bush. Isso é que é censura, censura com toda a oficialidade e aval da administração pública do país.

Mais uma que, inclusive, já é “viral” na internet: Em 1996, Michael Jackson, (lembram dele?) lançou a canção Earth Song que fez o maior sucesso. A letra fala do desmatamento, da sobre-pesca e da poluição. É um alerta ao mundo contra a destruição desenfreada, o desmatamento, o extermínio de espécies. Talvez por conta dos super detalhes, a música sofreu uma dura censura nos Estados Unidos, reconhecidamente o país que mais polui na face da Terra.

A censura, antes de qualquer coisa idiotiza uma nação – ou, senão, aqueles que forem seus alvos -, por exemplo: Os norte-americanos sabem que todas as outras democracias ocidentais modernas têm alguma forma de auxílio-saúde nacional – seja um sistema estatal, como na Grã-Bretanha, ou um modelo de fundo único, como no Canadá, ou algum sistema híbrido, como na França ou na Suíça – e que, em todos esses países, os sistemas são tão populares que sobreviveram a décadas de governos conservadores?

Não! Aquela mídia corporativa dá voz, no lugar disso, aos críticos excêntricos desses sistemas, fazendo-nos acreditar que eles são odiados por seus cidadãos.

Os norte-americanos sabem que os EUA deixaram de ter a melhor qualidade de vida do mundo, e não estão mais nem perto disso?

Não! Porque a mídia norte-americana continua a retratar os EUA como o “número um”.

Os norte-americanos sabem que a Al Qaeda foi, na verdade, uma criação da CIA?

Não! Esta importante peça de informação não é mencionada na mídia dos EUA, que sempre começa a contar a história da organização a partir de 1988, o ano em que ela foi batizada, quando na verdade suas origens datam do armamento dos mujahedin pela CIA e pelo serviço de inteligência paquistanês ligado à CIA, o ISI, no final dos anos 1970 e início dos 1980, quando os EUA queriam criar e apoiar a resistência à ocupação soviética do Afeganistão.

Que é óbvio para todos que a censura é fato comum em lugares como a China, a Rússia, o Irã ou a Coréia do Norte, tudo bem, afinal a ditadura anda de mãos dadas com ela e nesses lugares, seja militar ou religiosa, a ditadura “reina”. Falar de países da América Latina é “chover no molhado”, mas a constatação de censura (e eu dei exemplos pueris) na Inglaterra, na França ou nos USA, já nos faz pensar um pouco mais, não é mesmo? Quero dizer, então a censura faz parte dos governos?

Não, não é assim tão simples, na verdade a censura faz parte do homem!

Apenas não é característica de qualquer tipo de governo, a censura. Mesmo os governos ditatoriais têm a censura como uma defesa dos atos de seus integrantes, algo que garante o “status quo” de alguns em detrimento de muitos. A censura evita que as verdades apareçam e muitos dos cidadãos de uma nação censurada guardem dúvidas sobre essa ou aquela situação dita truculenta ou, sem a luz da verdade, julguem a sociedade que os cerca de forma imperfeita e incompleta dando subsídios para que seus “líderes” continuem no poder.

Ou seja, a censura serve ao homem e não ao poder. Mas todos sabem muito bem que o poder corrompe o homem, que todo homem é passível de render-se aos encantos do poder e aí, entra a censura para que ele, o homem corrompido, possa continuar no poder indefinidamente.

Então agora, chegamos ao que poderíamos chamar de “o cerne da questão”, o homem corrompido ou o homem momentaneamente (e por que não dar uma chance ao sujeito?) cego pelo desejo de mandar, possuir, fazer o que considere correto sem críticas, sem contrários, sem “outras idéias”, sem oposições, sem nada que a censura não abafe, emudeça ou mate!

Embora eu realmente acredite em uma onda de censura, ainda mansa, porém constante e insidiosa que está permeando a sociedade do século XXI e vem nesse crescente desde meados do século XX (é só pesquisar), eu também acho que uma forma real de atacá-la passa por tentar fazer entender que esse gérmen está no homem. E a educação para saber vê-la em seus berços, por mais simplórios que possam parecer, é uma arma essencial para, em algum futuro próximo, conseguirmos detê-la.

E onde está essa “censura ainda em botão”?

Ela está em qualquer homem que se veja em posição de decisão daquilo que qualquer pessoa de qualquer grupamento humano possa ver, saber ou falar ou escrever. Ela encontra solo fértil na mente de qualquer pessoa que se coloque na posição de líder, comandante, senhor ou se considere dono de algum ajuntamento de pessoas.

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Purgatório

Publicado por José Vasconcellos em 03/12/2009

Ao contrário – aliás, contrário mesmo, pra valer, de verdade – do que as pessoas pensam da palavra que fiz de título, o sentido mais amplo dela, dá uma excelente visão da Capital Federal do nosso querido Brasil.

Não gente! Calma!

Não estou falando de escândalos recentes nesse final de 2009, muito menos de política, se bem que, talvez, tenha alguma coisa a ver (vou pensar nesse assunto), mas agora, o que estou querendo passar é que Brasília, nossa Capital, é, definitivamente, uma área purgatória no sentido de  limpar nossas máculas pela ação deliberadamente propositada e direcionada do dia-a-dia de quem vai para aquela cidade.

Pois é, meus queridíssimos amigos brasilienses, eu disse de quem vai para aquela cidade, não de quem nasce lá.

Talvez os “nativos” de Brasília já nem precisem mais desse nível de purgação, talvez seja em outro nível, sei lá!

Mas Brasília é um lugar que não quer receber nossos “pesos” pessoais, eles são de outra época, outro mundo, outra vida que não interessa àquele lugar que foi vaticinado por Dom Bosco como “terra dos rios de leite e mel” na “versão oficial”, pois o sonho do velho salesiano nunca falou de cidade, muito menos de Brasília ou alguma capital de algum lugar, mas que falou de uma “terra prometida”, isso ele falou, sim.

Venho analisando minha vida desde que cheguei em Brasília – nem é tanto tempo assim – e, comparando com relatos de tantos outros migrantes que aqui se instalaram, percebo, invariavelmente, uma “linha central”, uma história idêntica, todos que aqui chegam, seja em busca de oportunidade, seja com um trabalho garantido, mas chegam para ficar, invariavelmente purgam seus passados. Talvez por isso digam que Brasília possui um alto índice de divórcios, você não vem para cá para viver um “inferno importado”, você vem para “fazer uma vida” e a vida em Brasília, necessariamente, precisa ser vinda da semente.

Pode perceber quem trás seu pretérito para Brasília e insiste nele, encontra problemas, dificuldades, barreiras, sejam elas profissionais ou pessoais e só começam a resolver seus problemas quanto começam a trabalhar ou a agir ou a viver diferentemente do que viviam em suas cidades de origem. Você que veio para cá e está vivendo uma vida relativamente boa ou, ao menos, tranqüila e com uma direção, pode até achar que apenas estendeu a vida de lá aqui na Capital Federal, mas se parar para rever vai descobrir que vive outra vida, mais diferente de quem ou o que você era do que poderia imaginar.

Em Brasília a gente purga e cresce!

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Perda

Publicado por José Vasconcellos em 02/12/2009

De repente, não existe mais, de repente tudo se foi, passou, acabou. Tudo!

Resta a sensação de vazio, resta a sensação de ter sobrado, ficado para trás, deixado para morrer, ou para viver.

Essa sensação que nós, poucos de nós, temos a felicidade (sim! Tenha certeza que sim!) de provar. A sensação inexplicável, indefinível, de vazio, de distância, de solidão. Estar absolutamente só, no meio de outros tantos.

Tentar traduzir isso em palavras é absolutamente impossível. Pode-se até chegar bem perto, ou mesmo ser incomparavelmente poético, apenas isso, apenas próximo, solitariamente próximo.

Os jovens, os poetas, os amantes, e todos os que puderem se colocar nessa lista por algum motivo, por alguma razão, inconsciente que seja, passaram, estão passando ou passarão por isso. Saberão (se é que já não sabem) da dor, a dor da perda, a dor de não ter mais, a dor de não ser mais.

Porém, somente os mais velhos, conseguirão depreender o que vem e fica dessa “perda” – e aqui ela já começa a exigir as aspas – é que você não perde nunca, não perde jamais, não existe a  “perda”, não existe o “não ter mais”, existe a diferença, existe o “ser outra coisa” ou, se ainda não podemos entender bem isso, existe a lembrança, e a lembrança é para sempre, a lembrança é ter e estar sempre.

Alguém pode tentar, com toda força que tem, te magoar, pode fazê-lo partindo ou pode fazê-lo te afastando, na verdade você pode se magoar se alguém vai embora para sempre, mas não pode ser magoado para sempre se essa “perda” se tornar uma lembrança.

Eu tenho boas lembranças!

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Atrasado??… De novo!?…

Publicado por José Vasconcellos em 21/11/2009

Sabe aquele excepcional “Banco de Horas”?

É! Aquela cretinice inventada pelo “empresariado” com o único intúito de não pagar o que você, realmente, merece receber pelas horas a mais durante a semana, e os fins-de-semana que você deixa de fazer alguma coisa que gosta de verdade para se iludir que é “importante” ou “necessário” ou útil ou, pior ainda, vai fazer algo que “lhe dá prazer”???

Pois é! Sabe como ele sofre “descontos” cada vez que você chega atrasado????!…

Então?!?!?!!!…

Seus “pobrêmas si acabaraumçe“!

 

http://tecnologia.terra.com.br/interna/0,,OI1318506-EI4799,00.html

Agora você, trabalhador iludido, pode garantir ficar estressado sem necessidade, desde o primeiro minuto do seu dia miserâvééuuu!…

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Depois EU é que sou paranóico, né?!

Publicado por José Vasconcellos em 21/09/2009

E depois dizem que EU sou paranóico!

Vejam só:

Os Estados Unidos divulgaram uma lista com as 10 marcas mais valiosas do mundo em 2009.

as-marcas-mais-valiosas-do-mundo

Vejam que coisa:

Varejo………………..: 1 marca;

Industria…………….: 1 marca;

Cigarros………………: 1 marca;

Telecomunicação… : 1 marca;

Comida……………….: 2 marcas;

TI………………………: 4 marcas;

Das ditas “marcas mais caras”, 4 são de TI (tecnologia da informação).

É claro que, para uma marca ter seu valor expresso em Bilhões de dólares é porque, mercadologicamente falando, ela está “por cima da carne sêca”, certo?!?… Claro!… (ou quase)

Muito bem, sem nem levar em consideração alguns avisos de astrônomos loucos pelo mundo afora que berram sobre tempestades solares e seus efeitos magnéticos sobre a Terra (um belo e poderoso pulso magnético e as 4 marcas caras desapareceriam da face da Terra), mas sem nem pensar nisso, estamos vivendo um mundo com bases tão frágeis quanto um dente-de-leão (a planta, é claro). Pensem comigo:

1 – A telecomunicação une as 4 marcas;

2 – A união dessas 5, gera um público consumidor gigantesco que abastece a sexta marca, a do varejo;

3 – As seis marcas impelem a massa humana que elas formam, ao consumo das outras duas, as da alimentação;

4 – As primeiras 4 marcas que listei aqui, movem-se com o apoio inconteste da marca da indústria, a GE;

5 – Como fica “no ar” essa idéia de que as nove marcas funcionam “como irmãs”, sugando o que seja possível da tal massa humana, só nos sobra sentar em um canto qualquer, acender um cigarro e esperar o pulso magnético;

E olha que eu nem parei para pensar no que vai além, heim?!

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A Perigosa Cibercultura

Publicado por José Vasconcellos em 03/08/2009

“O ano 2000 chegou, eu vi, e decidi tomar o partido da humanidade”

Pierre Lévy

INTRODUÇÃO

vicio_internet3Mais cedo ou mais tarde algum dos ditos “fenômenos sociais”, emergiria do pântano das criações humanas, “encapsulado” em alguma roupagem ilusória, ocultando em suas entranhas verdades que, quando descobertas ou levariam seus criadores a repensar a criatura ou fariam desses meros vassalos, levando todos a um desditoso fim ou ao início da recriação – porque a criação já foi.

Esse fenômeno mitológico é a tal da cibercultura!

Mas o que ela é exatamente? Quando foi que a utilização de um “utensílio doméstico”, uma “ferramenta de apoio”, um “aparelho facilitador” ganhou o direito de chamar-se “cultura”? – Isso não significa que possa haver confusão sobre a diferença entre veículo e conteúdo, mas é inegável que a internet, indubitavelmente, é o ícone da cibercultura. Portanto são válidas essas perguntas.

Antes de pensar se existe resposta para a segunda pergunta, ou mesmo se isso chega a merecer ser chamado de pergunta, olhemos por sobre nossos ombros para a História e vamos nos perguntar quando foi que tivemos outras culturas baseadas em um ícone?

Tivemos a cultura do ábaco? Do lápis? Da imprensa? Da TV?… Essa última, não há como discordar, é mais muito mais do que uma cultura, está mais para um conquistador insaciável e incansável que envolve e molda “sua própria imagem e semelhança” em tudo que a humanidade produziu, e que mereceu ser notícia, desde 1924.

Aliás, usando a cultura da TV, existe uma comparação bastante simples que mostra um pouquinho do que podemos esperar – na verdade já é possível ver – dessa dita cibercultura. Na cultura televisiva – que de agora em diante andará emparelhada com a cibercultura até ser totalmente engolida por ela – existe a necessidade social de limites e esses limites se traduzem nas “cartas de intenções” de muitos órgãos de vigilância, ou mesmo censura, em vários países, além de entidades particulares que tentam ditar alguns horários de programação, principalmente nos USA.

Certo é que alguma forma de controle de horários de determinado tipo de programação existe em todos os países. É claro que a palavra “censura” deve ser vista com a desmedida singeleza que adquire nesses casos em que falamos de países democráticos, mas uma auto-regulamentação existe sim.

Já do outro lado, no universo da cibercultura, isso é impossível e é assim mesmo que tem que ser, afinal pensar em algum tipo de cerceamento no ambiente do ciberespaço é uma ignomínia, há que se concordar.

Mas não sejamos tão ingênuos a ponto de não percebermos o nível de censura que já existe na internet – haja vista o “bloqueio” a determinados países que ocorre quando você tenta um acesso a um determinado conteúdo? – Não se trata de salvaguardar “segredos industriais”, trata-se de conteúdos proibidos para uma determinada gama de endereços IPs, que caracterizam esse ou aquele determinado país.

O chamamento às matérias com este conteúdo – cibercultura – para a REVISTA ARTEFACTUM – no site da RAFROM – faz loas à dita, mas apesar de tudo que podemos encontrar de positivo no universo da cibercultura, esses avanços tecnológicos quase sempre apresentam outro lado menos positivo para o indivíduo ou são dignos de uma análise mais profunda e criteriosa sob a ótica da interferência dessas tecnologias na vida do mesmo. Não é possível ficarmos atrelados a todas essas meias-verdades como se fossem a panacéia universal.

A cibercultura é uma expressão perigosa até mesmo em sua definição que, como tal, precisa ser muitíssimo bem entendida. E, além disso, seus aproveitadores freados em suas intenções igualmente daninhas.

Vejam que já chegamos ao cume, já tivemos um presidente eleito com a força da cultura da internet e não foi qualquer presidente, foi o presidente do país ainda tido como o mais poderoso do planeta. Essa verdade é fácil de se verificar haja vista que o primeiro discurso de agradecimento como presidente eleito feito por Barack Obama foi na Internet!

O próprio termo Cibercultura tem vários sentidos. Mas se pode entender por Cibercultura a forma sociocultural que advém de uma relação de trocas entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base microeletrónicas surgidas na década de 70, graças à convergência das telecomunicações com a informática. A cibercultura é um termo utilizado na definição dos agenciamentos sociais das comunidades no espaço eletrônico virtual. Estas comunidades estão ampliando e popularizando a utilização da Internet e outras tecnologias de comunicação, possibilitando assim maior aproximação entre as pessoas de todo o mundo. (Wikipédia)

Essa parte da definição de cibercultura, que pode ser lida na Wikipédia, oculta um procedimento estratégico de dominação que não pode simplesmente ser relevado como uma sandice ou paranóia. Quando lemos “… maior aproximação entre as pessoas de todo o mundo…” também estamos lendo “todos os peixes em um só barril” e esse “barril” fica mais apertado na medida em que, através da Internet, falamos uma mesma língua – como se fosse um Esperanto sem esperanças -, ou passamos nossas impressões e aceitamos impressões de terceiros mais facilmente ou mais inadvertidamente.

Lá também está escrito: “… ampliando e popularizando a utilização da Internet…” – essa frase pode ser bastante interessante porque a partir dela vislumbramos os peixes no barril. Como exemplo, citamos o último mês de Maio, logo no início, quando presenciamos um “caos sutil” em um grupo – grande – desses peixes, na ocasião em que a GOOGLE esteve “quase fora do ar” em virtude, segundo a empresa divulgou, de falhas em um grupo de roteadores. Houve muitos relatos de pessoas que se sentiram desnorteadas por não poderem usar aqueles serviços. – Desnorteadas? Por não poderem usar um determinado serviço da internet? É um serviço essencial? Isso é um vício?

Antes de citarmos outro exemplo, não nos esqueçamos que a atual tecnologia “traz para suas mãos a Internet”, como apregoam os inúmeros comerciais falando sobre essa “facilidade”. Isso posto e voltando aos peixes encerrados em um barril podemos citar, olhando apenas para nosso País, que tínhamos em Março de 2009, uma proporção pouco acima de 80% de brasileiros com aparelhos celulares conforme registros da própria Anatel. Quer saber onde estão os peixes? É só constatar que há 12 anos atrás os celulares não eram comuns e vivíamos muitíssimo bem sem eles.

E agora se imagine, nos dias de hoje, saindo de casa sem ele!

Existe uma malignidade na cibercultura, vejamos as razões: esse “demônio” que foi insinuado não tem chifres, ele age de forma venenosa e bastante dissimulada quando o assunto é “pensar em corações e mentes”, principalmente corações e mentes jovens e de países menos desenvolvidos – vejam os IPs mencionados anteriormente – e isso se torna claro quando olhamos para a média dos jovens brasileiros e percebemos uma “mesmice virtual”. É difícil vermos conversas que ultrapassem as ferramentas padrões, como se não houvesse novos instrumentos aparecendo quase diariamente – e nem assuntos mais profundos – como se os assuntos que envolvessem a internet não fossem além das fofocas do grupo.

Não há como discordar de que o jovem brasileiro – ou o latino-americano – de hoje em dia, final da primeira década do século XXI, esteja buscando seu espaço na comunidade, mas será que um percentual alto desses jovens sabe bem o que está procurando? Será que ele, o jovem mediano, sabe aproveitar positivamente as facilidades dessa cibercultura para seguir o seu caminho? Ou essas mesmas “facilidades”, na medida em que são despejadas em seu colo, simplesmente, não o está tornando mais e mais dependente de algo, qualquer coisa que seja, que simplifique demais as ações que poderiam fazê-lo mais cônscio de seus deveres ou até de si mesmo? Afinal a própria leitura está sendo posta de lado quando falamos de pesquisas escolares, ou ainda pior, trabalhos de final de curso em universidades. Em listas de discussão com algum conteúdo técnico não é sequer raro vermos pedidos de material para composição de trabalhos de fim de curso e outros. E, muitas vezes, esses pedidos são atendidos on-line.

Onde foi parar a pesquisa própria, a busca de informações ou o simples folhear de livros?

É claro que facilidades são bem-vindas, desde que elas não destruam o processo de assimilação e aprendizagem, muito menos a prazerosa curiosidade humana ao mesmo tempo em que “quebram paradigmas” como alguns querem crer ou repetem esta expressão, cegamente, sem perceber a óbvia “ode à preguiça” que estrondeia por trás do termo.

Mas o alvo não são somente esses jovens. Há pouco tempo, “maduros” também se deixaram levar por um viral que provocou ondas de sentimentalismos, indignações, apoios exaltados e por aí vai, quando o fato nada mais foi – e isso era mais do que evidente – do que uma armação da TV inglesa sobre um programa do tipo “show de calouros” que, aliás, já foi desmascarada. A forma como esses “virais” afetam a comunidade merece uma atenção mais séria haja vista serem capazes de provocar comoções que podem agir sobre diferentes áreas da sociedade, até mesmo gerar sérios problemas comerciais e econômicos. A propósito, “viral” deriva da expressão “marketing viral”, coisa já antiga nos meios de comunicação. Fala-se “viral” para notícias, imagens ou vídeos que se espalham pela internet como se fossem um vírus de computador, sem o efeito destrutivo do mesmo, ou quase.

Quando o assunto passou por censura na Internet, a imagem foi de leitores se questionando: “Se existe censura, então pode existir manipulação?” – daí se existe manipulação… Deixemos a cada um a tarefa de “desfiar um rosário” sobre isso!

Outro prisma mais triste e opaco da cibercultura pode-se perceber quando, extrapolando o ícone dessa cultura – a Internet – lemos essa parte da definição: “… novas tecnologias de base micro-eletrônicas…” e nem falando do complemento da frase, “década de 70″, mas vindo para os dias atuais, muitas dessas novas tecnologias que aproximam as pessoas, também mantém cada qual em sua ilha, distantes do contato físico ou daquele bom e velho olho no olho.

É comum entrarmos no metrô ou no ônibus e vermos as pessoas mergulhadas em si mesmas, ouvindo alguma coisa, jogando alguma coisa ou falando com alguém através desses aparelhinhos que – além de servirem como distração – garantem que você sempre seja encontrado esteja onde estiver, até em um buraco debaixo da terra – e o outro ser humano ali do lado, que bem poderia render uma boa conversa, uma interação amiga ou uma boa amizade, tentando fingir-se de distraído.

Mas sem deixar fugir aquele ícone mencionado- e sem conseguir evitar visto seu poder – existe um exemplo bastante difícil de encararmos: a Internet alimenta uma condição comum nas pessoas e que, devido a ela, deixa de ser um problema isolado de cada um, para tornar-se o motivador de mais uma moda da cibercultura, essa necessidade que temos de que nos vejam mais como desejamos ser do que como realmente somos o que, convenientemente, também nos afasta do convívio real – a dicotomia entre o ser real e o ser ideal. Essa distância imposta pela moda dos chats afasta-nos uns dos outros, nos permitindo, tolamente, nos apresentarmos como bem quisermos em detrimento da verdade de quem somos. Quem tem filhos já deve ter passado pela experiência de ver o rebento chegar em casa da escola e ir para alguma sala de bate-papo para “ficar conversando” com os colegas do colégio. Mas eles estavam juntos agora mesmo!!! Que diabos?!

Alguns poderão defender-se com o justo escapismo da segurança, das dificuldades dos pais em ficar até tarde no shopping ou na própria escola enquanto os filhos “trocam figurinhas” (nem sempre tão literalmente), ou que as crianças não querem ficar “pagando o mico” de ter algum dos progenitores por perto. Certo, pode até mesmo ser compreensível, mas quando uma conversa “cai na rede”, essa conversa também pode ser monitorada não é mesmo? Mas por quem?


RESUMINDO

A conclusão de Comasseto, ao comentar Pierre Lévy:

A expansão da consciência e a inteligência coletiva que, pelo advento da rede eletrônica que conecta o mundo de modo virtual e instantâneo, estaria prestes a democratizar o acesso às formas de poder e a realizar o ideal tão sonhado de uma sociedade autônoma e igualitária. (Comasseto, 2005)

À luz das realidades que nos sufocam chega a ser inocente e sonhadora. É até bonito pensar assim, sonhar com algo assim, almejar e buscar essa realidade, mas a dura e crua realidade mesmo é outra e não tem nada de “sociedade autônoma e igualitária”, é um jogo de dominação sem precedentes e com gente apoiando sem ter a menor noção do que está realmente acontecendo ou, sem nenhuma preocupação com o futuro dos seus.

Martin Heidegger, um “pensador da técnica”, condena as correntes que a vêem como: a) uma atividade do homem; b) um meio para determinado fim – e muitos fazem coro com ele, eu até quero fazê-lo também, mas no “frigir dos ovos”, quando paramos séria e friamente para acompanhar os acontecimentos que nos cercam, a letra “b” é exatamente o que está acontecendo, de forma daninha e inexorável, em um nível mais delicado de percepção.

Essa conclusão está bem expressada por Neil Postman:

Em que extensão a tecnologia do computador tem sido uma vantagem para as massas? Para os operários siderúrgicos, proprietários de quitandas, professores, mecânicos de carro, músicos, pedreiros, dentistas e a maioria das pessoas cujas vidas o computador está invadindo agora? Seus assuntos particulares foram tornados mais acessíveis para instituições poderosas. Eles são seguidos e controlados com mais facilidade; são submetidos a mais exames; são mistificados cada vez mais pelas decisões tomadas sobre eles; muitas vezes são reduzidos a meros objetos numéricos. São inundados por correspondência inútil. São alvos fáceis de agências de publicidade e de organizações políticas. As escolas ensinam seus filhos a operar sistemas computadorizados, em vez de ensinar coisas mais valiosas para crianças. Resumindo, para os perdedores não acontece quase nada do que precisam.(Postman, 1992, p. 20)

É importantíssimo frisar que essa visão já era bastante clara há um bom tempo atrás, nos idos de 1992!

Então quando foi colocada, no início do texto, a frase de Pierre Lévy, a menção realmente tem o intuito de tomar partido da humanidade, a humanidade livre e plenamente democrática.

Mas onde ela está?

E para onde está caminhando?

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A Fábula Do Parquinho

Publicado por José Vasconcellos em 07/07/2009

Parquinho

Sabe aqueles dias gostosos?…

Tardes de Outono! A temperatura tem todo o jeitão que vai cair você pensa em um agasalho, mas, no final, sabe que a noite será uma delícia.

Pois é! Era um dia assim, uma tarde assim. Um daqueles dias onde não há como estragar, ou não deveria haver.

Joãozinho estava todo prosa, e tinha todo o motivo de estar, sua bola nova, linda, vermelha, brilhante, nem tão leve nem tão pesada, apenas gostosa de se brincar. E lá foi ele, todo feliz para o parquinho pelas mãos de Lucelene, a babá… Não! Babá não! Lucelene era um anjo que cuidava dele quase com o afeto da mãe que tão desvelada em carinhos e cuidados quando as tarefas do lar e o trabalho na loja o permitiam, deixava-o aos cuidados daquela jovem mais que amiga, quando essas mesmas tarefas a tomavam.

O pequeno João chegou no parquinho com o coração aos pulos, todos os amiguinhos estavam ali, todos que ele chamara para sua festa no Sábado que se aproximava. Estavam entre os escorregas, os balanços, os cavalinhos de latão, as trilhas de areia e os pneus pintados. E João sabia que todos iriam ver sua bola nova, que todos iriam brincar com ele e sua bola nova… A festa de Sábado estava chegando!

E assim foi! A meninada brincava com todo o fôlego dos homens e mulheres do futuro, com toda a inocência e santidade dos pequeninos que da vida, só sabem sorrir. Corrida, pique-pega, balanço, escorrega, pique-esconde, lanchinho e… Futebol!

Futebol! O pequeno João não era exatamente um craque, mas gostava do jogo, não gostava de competir, nem do natural enfrentamento entre os meninos na hora de dividir uma bola ou correr para chutar em gol, mas ele estava tranquilo, a festa de Sábado era aguardada por todos, todos queriam ir à festa onde o palhaço “Pebolim” iria apresentar seus truques de mágica e suas brincadeiras… E a festa era do João, o João que estava ali entre eles, brincando, chutando, correndo.

Em uma dessas idas e vindas do velho “esporte bretão”, João e Juquinha esbarraram e foram ao chão, arrastando-se na areia do parquinho, ralando joelhos, sujando shorts, coisa de criança que Juquinha, menino levado que morava na casa do final da rua, nem ligou, levantou e já deu um chute na bola, direto para o gol, e quase que marcou o danado, levando os dois times à gritaria e algazarra natural nessa idade de sonhos e brinquedos. Enquanto todos corriam atrás da bola, Joãozinho levantou-se espanando a areia e gritou com Juquinha, disse que ele não podia ter esbarrado nele, que fora de propósito, que doera e tinha sido falta, o quase gol não valera.

Todo mundo ficou meio sem ação, ninguém vira nada, ninguém percebera nada. Juquinha – como já disse um garoto levado – nem ligou, olhou para o João e riu, riu da cara dele, riu das roupas sujas, riu do joelho ralado, riu como toda criança deve, sempre, poder rir. E todos riram também, todos, crianças que eram – meninada sadia -, riam daquilo que, para todos, era mais uma brincadeira do aniversariante do Sábado.

Só Joãozinho não ria mais, só Joãozinho não queria mais brincar, só Joãozinho levantava a mão e desferia um soco em Juquinha que, malandro que era, desviava e, ainda rindo, empurrava o agressor dizendo bobagens de criança.

João caiu e ficou esperando os amiguinhos o ajudarem a levantar, caiu e ficou esperando os convidados da festa de Sábado ralharem com Juquinha, dizerem coisas para o menino malandro da casa do final da rua, caiu e ficou esperando que lhe entregassem a bola… Mas as crianças são crianças e quando uma ri gostoso, todas riem gostosamente, pois é assim que criança é. Criança é criança!

No meio da algazarra, João, o ranzinza, tomou a bola das mãos de quem estava com ela fosse lá quem fosse, pegou a bola, botou debaixo do braço, fechou a cara e foi, choramingando, ter no colo de Lucelene, lacrimejando uma coisa que criança que é criança não sabe o que é. João sentia raiva. Raiva do Juquinha, raiva do parquinho, raiva da bola, até de Lucelene que lhe pedia voltasse a brincar. Juquinha chamou João que fez ouvidos moucos, Juquinha chamou novamente e de novo e mais uma vez, mas João, o ranzinza, não queria conversa com Juquinha, não queria conversa com os times, não queria conversa com ninguém no parquinho. João gritou com Lucelene, que se espantou com o seu Joãozinho, sempre tão calminho, sempre tão amigo e, ali naquela hora, uma pequenina e patética ferinha.

João que estava com a bola debaixo do braço, gritou novamente, gritou que não iria mais brincar, gritou que não iria mais emprestar a bola, gritou que Juquinha era um lixo, gritou que ele não podia ir à sua festa e que todos não iriam mais a sua festa e que Lucelene não iria mais a festa, que o bolo, os balões, os doces, o palhaço Pebolim eram só dele e que todos, todos, todos que não se renderam a sua autoridade de dono da bola e dono da festa, não estavam mais convidados, não poderiam mais aparecer lá no prédio dele, que ele iria falar com seu pai, o síndico, que ninguém do parquinho poderia ir à festa, ninguém, ninguém, ninguém…

No Sábado, João estava calado, sozinho, olhando o palhaço Pebolim fazer suas mágicas, afinal o artista já fora pago para isso. O pai, indignado com os agressores do parquinho que tinham surrado seu filhinho, dera ordens aos porteiros: “ninguém daquele parque entra aqui, ninguém!” e ninguém entrou, mas não porque os porteiros fossem azedos ou de coração duro, ninguém entrou porque ninguém foi à festa. Ninguém quis ir à festa.

No Sábado, enquanto no playground do prédio uma festa silenciosa acontecia, a algazarra no parquinho avisava a toda a rua: “Tem criança feliz no parquinho!

Até a próxima!

José Vasconcellos

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Prevendo o Futuro Próximo

Publicado por José Vasconcellos em 06/07/2009

- Ah! Meus netinhos e netinhas! – diz o velho.

- Nós somos seus bisnetos, vô! – retruca uma menina sem tirar os olhos de algum aparelho esquisito.

- Hehehe! É! Tudo bem, tudo bem… Hehehe! toss, toss, cof, cof! - concorda o velho – Mas eu inda me lembro, lembro sim!… Cof, cof, cof!

- Lembra do que, vô!? – pergunta um garoto já meio de saco cheio e sem tirar os olhos de uma pequena tela brilhante que carrega nas mãos.

- Lembro de uma coisa antiga, já esquecida de muitos – diz o velho com lágrimas nos olhos – Lembro que chamavamos de “LIBERDADE DE EXPRESSÃO“.

Nisso, um alarme começa a soar, as crianças, mesmo assustadas, automaticamente se levantam e, sem tirarem os olhos de suas telinhas brilhantes, correm para as paredes da grande sala e ficam de rostos voltados para elas, olhando apenas para suas telinhas brilhantes sem nada dizerem.

Um grupo do “BOPE_TI” (Batalhão de OPerações Especiais com Tecnologia da Informação) entra na sala e sai arrastando o velho que sequer grita em sua defesa visto a seringa aplicada com rapidez e destreza.

O alarme para, as crianças, ainda olhando para suas telas, voltam ao ponto da sala onde estavam.

- Do que é que a gente estava falando? – pergunta a menina.

- Sei lá! Mas eu bati meu record no “Pokémon Acid Acrilic”. – Diz o garoto exultante.

Fooooiii!?! – Assombram-se os outros. E no meio de uma chuva de “me ensina”, “me ensina”, “xêu ver”, “xêu ver” as micro-câmeras voltam às suas atividades rotineiras.

(extraído de um remaker de “1984″ de George Orwell que ninguém nunca leu, nem nunca viu)

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